Recording
September 30, 2026
04-familia.m4a3 min 1 sImported filePortugueseadded October 3, 2026
What the archive found in it
5 storiesFive stories were found in this recording.
1954, inferred by the archive, not said
1 · 0:01–0:41 of the recording
Avó e rotina na casa
inteiro, antes de eu saber ler, eu devia ter uns seis anos, ela dizia que quem reza com fome, reza pela metade, então primeiro a tapioca, depois a reza.
Listen, 0:39childhood, inferred by the archive, not said
2 · 0:41–1:18 of the recording
Escola com professora Azuleide
Azuleide tinha uma régua de madeira que ela batia na mesa quando a gente conversava.
Listen, 0:371995
3 · 1:18–1:54 of the recording
Primeira viagem de avião
Quando o avião desceu, e eu vi aquela cidade que não acabava nunca, eu pensei, meu Deus, como é que alguém acha a própria casa num lugar desse tamanho?
Listen, 0:352010
4 · 1:54–2:23 of the recording
Sanfona do José após morte
Às vezes eu abro a porta só pra olhar, não toco porque não sei, mas parece que ela ainda tem um som dele lá dentro, sabe?
Listen, 0:281999
5 · 2:23–2:58 of the recording
Ensinando neta a costurar
Hoje, ela é quem me ajuda a enfiar a linha na agulha, porque a minha vista já não é mais a mesma, né?
Listen, 0:35
Each story is also a moment in Kiara’s life. See it in Kiara’s life
Everything that was said
Ai minha filha, hoje eu quero falar da minha avó, a dona mocinha, ela morava com a gente, Quixada, e acordava antes do galo, era ela que fazia a tapioca de manhã na chapa do fogão de lenha, e me ensinou a rezar o terço,
said ·
inteiro, antes de eu saber ler, eu devia ter uns seis anos, ela dizia que quem reza com fome, reza pela metade, então primeiro a tapioca, depois a reza. Quando ela morreu, eu tava com doze anos de idade, e a casa ficou com silêncio, que eu nunca esqueci.
childhood · stage of life
from “eu devia ter uns seis anos” ·
[c. 1954] · when
inferred ·
Calculated from “eu devia ter uns seis anos” and the year of birth, 1948.
[c. 1960] · when
inferred ·
Calculated from “eu tava com doze anos” and the year of birth, 1948.
A escola era uma salinha só, perto da igreja, a professora Azuleide ensinava todo mundo junto, os pequenos e os grandes, tudo na mesma sala. Eu escrevia numa luzinha de pedra, porque caderno era caro, né? Azuleide tinha uma régua de madeira que ela batia na mesa quando a gente conversava. Nunca bateu em ninguém, mas o barulho já dava medo.
said ·
[childhood] · stage of life
inferred ·
Inferred from these words, which don't name a stage of life.
Foi ela que me disse que eu tinha a letra bonita, e que devia aprender a costurar com capricho, porque costura também é escrever, só que com linha, né?
Em 95, eu andei de avião pela primeira vez. O Marcos tinha ido trabalhar em São Paulo, e mandou uma mensagem, né? Passagem pra mim e pro José. Eu rezei a viagem inteira, o José dormiu.
Quando o avião desceu, e eu vi aquela cidade que não acabava nunca, eu pensei, meu Deus, como é que alguém acha a própria casa num lugar desse tamanho? Eu fiquei um mês lá, fazia frio de verdade, e eu dormia de meia pela primeira vez na minha vida.
O José morreu em 2010. Já tava doente faz um tempo, mas não deixava ninguém tocar na sanfona dele. Depois do enterro, eu guardei a sanfona no guarda-roupa, enrolada num lençol branco. Às vezes eu abro a porta só pra olhar, não toco porque não sei, mas parece que ela ainda tem um som dele lá dentro, sabe?
said ·
2010 · when
said ·
A Ana, minha neta, nasceu em 99. Desde pequenininha, ela sentava do meu lado, enquanto eu costurava. Igualzinho eu fazia com a minha avó. Quando ela fez 10 anos, eu ensinei ela a usar a máquina.
Ana · neta
said ·
1999 · when
from “99” ·
Ela costurou um vestidinho torto pra boneca, e ficou tão orgulhosa que dormiu com ele. Hoje, ela é quem me ajuda a enfiar a linha na agulha, porque a minha vista já não é mais a mesma, né? É, pronto. Acho que por hoje é isso.
Written down by speech recognition. The recording is the original.